AS MINHAS MEMÓRIAS DA GUINÉ 65/67

Emblema da Companhia

Emblema da minha Companhia

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Embarque em Lisboa com destino à Guine Bissau no Niassa Cais da Rocha Conde Óbidos, ao fundo a ponte sobre o Tejo ainda em construção.

Em 18AGO65,embarquei em Lisboa no Niassa a caminho da Guiné, fazendo parte da CCaç. 1426.

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Jogando ténis de mesa no Niassa a caminho da GUINÉ-BISSAU

Chegando a Bissau no dia 24 do mesmo mês de madrugada ainda a dormir, quando acordei levantei-me e fui espreitar pela janela, barco parado e em frente o cais onde deparei só com nativos, fixei-os e de repente pareceu-me que a alma me caiu aos pés, mas logo pensei na missão a cumprir e nada a temer o destino a Deus pertence.
Desembarcamos fomos para o quartel de Sta Luzia junto ao Quartel-General.

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O primeiro dia no Quartel de Santa Luzia ainda de camuflado. Depois já fardado com a farda de piriquito, uma das primeiras companhias a usá-la na Guiné.

Aí estivemos até aos meados de Outubro como companhia de intervenção, durante este período tivemos vários patrulhamentos e operações.

PRIMEIRA PATRULHA DE RECONHECIMENTO

Ao quarto dia ou quinto chamou-me o comandante de pelotão que no dia seguinte ia fazer um patrulhamento a uma tabanca para os lados do aeroporto com a minha secção, já viram um piriquito que tanta mal diziam da Guiné, disse! uma secção! Não há problemas aqui em volta não há nada e que a viatura já estava tratada, fui dormir de manhã a seguir ao pequeno almoço chamei os meus soldados para se equiparem que íamos sair eu já estava pronto, como não havia nada fui equipado com máquina fotográfica, um guia e lá fomos visitar as tabancas referenciadas na carta, foi tudo numa boa falou-se com os chefes das tabancas tiraram-se umas fotografias com as bajudas e regressamos ao quartel, tive de fazer um relatório do que se passou, como não era escritor nem dom para prosa pedi ajuda ao Fur. Vaqueiro e lá foi o relatório, para começar nada mau.

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Com a minha secção na 1ª patrulha nos arredores de Bissau, da esquerda: Soldados Matos, Guerreiro Fur Chapouto 1º. Cabo Alfredo de um soldado nativo servindo de guia e o Soldado Leonel no final de Agosto 65

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Bajudas mexendo o milho, fotografia tirada na minha 1ª. Patrulha nos arredores de Bissau

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Bajudas pilando arroz numa Tabanca nos arredores de Bissau, aquando da minha 1ª. Patrulha

Escolta a um barco com géneros a FARIM.

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Militares que fizeram parte da escolta a FARIM: da esquerda para a direita, em baixo: 1º.Cabo Vitorino, 1º. Cabo Enfermeiro Coimbra, 1º. Cabo Alfredo Soldados Costa e Guerreiro, em cima eu Fur. Chapouto soldados Matos, telegrafista, Cozinheiro Júlio, Paixão e Duarte faltam dois, o Leonel e o Valter

Passados uns dias entra o Fur Chapouto na baila numa missão muito delicada, fazer escolta a um barquito com dois batelões carregados de géneros para as tropas estacionadas na zona de FARIM, lá fomos a minha secção com um enfermeiro, cozinheiro, radiotelegrafista, o barco a dez à hora mesmo na praia mar, na baixa- mar, parava, entramos no rio CACHEU começaram a surgir os problemas o rádio não funcionava talvez por falta de experiência os alimentos todos estragados, com arroz cheio de bicho feijão idem azeite e algumas conservas e chouriços que tivemos que começar a racionar, pois ainda faltavam muitos dias e as rações de combate não dariam para todo o tempo, chegamos ao CACHEU pedimos pão que nos foi fornecido em quantidade, aí conseguimos contactar com BISSAU que estava tudo a correr bem excepto a alimentação, resposta que nos desenrascássemos, pois nada havia a fazer e lá íamos ao som das marés até S VICENTE, acompanhados de perto por uma lancha da marinha que ia e vinha, sempre com o barco à vista, onde estivemos dia e meio à espera do barco patrulha, nesse tempo pesca, onde se pescou um tubarão ou da família mas pequeno, deu para uma ou duas refeições, aí o comandante do barco patrulha alertou-me para o perigo que ia-mos enfrentar lá fomos atrás dele, ele ia para cima e para baixo tudo de noite, até que o inesperado aconteceu eu estava a passar pelas brasas de repente ouvi umas rajadas, G3 em posição, mas nada mais chegou um dos cabos Furriel que está aí a fazer temos um ferido, mas eles já se calaram dizendo eu, não são terroristas foi o “preto” que ficou-se a dormir e o barco meteu-se pelo arvoredo dentro, partindo-o pareciam rajadas, temos um ferido, como se feriu o soldado, a roldana do mastro ao embater nas árvores soltou-se e caiu-lhe em cima da perna e partiu-a, soldado este não pertencia à minha secção ia para FARIM para mais uma comissão como voluntário.
Tirei o “preto”do leme e pus lá o meu cabo que era de PORTIMÃO e tinha carta de barcos lá continuamos até BINTA onde deixamos o ferido e continuamos até FARIM onde chegamos ao meio da manhã, depois de feitas todas as formalidades fui ter com o Sargento dia que era um Furriel do meu curso para nos dar uma refeição, contando-lhe a história por ele não havia entraves o Oficial de dia só pôs problemas, disse-lhe se era preciso por o problema ao comandante do batalhão que eu ia ter com ele, lá se ultrapassou, mas andei nisto mais de uma hora, comemos os restos do tradicional prato da tropa, feijão com chouriço, ninguém disse que era feijão como diziam na Metrópole venha ele, para sorte nossa FARIM tinha sido atacada na manhã anterior com morteiradas e basucadas, estava preparada para nós, como atrasamos um dia por causa do barco patrulha safamo-nos, lá começamos nós o regresso paramos em BINTA para carregar os batelões de madeira foi rápido, pois a maré não esperava o regresso foi mais rápido e sem problemas até à entrada da barra, uma grande tempestade, pois estávamos na época das chuvas, grande trovoada, ondas com muita altura, desamarraram os batelões que ficaram à deriva e o barquito onde fiquei com mais dois ou três soldados e a tripulação que eram nativos, pensei não morro com um tiro mas morro afogado além de saber nadar pensei que era o fim, os nativos rezavam, pareceu-me uma eternidade, com o clarão dos relâmpagos via o lamaçal na margem, como é que nos safamos se o barco se volta lá ficamos atolados mas o pesadelo só terminou quando a tempestade passou, isto tudo de noite, começou a romper o dia, agora era a tarefa de ir atrelar os batelões que ficaram à deriva, um distante do outro, os nativos lá os amarraram e lá fomos até ao cais de BISSAU, comuniquei a chegada ao comandante de companhia, as viaturas chegaram rapidamente, por os restos nas viaturas ala que são horas que a fome apertava, toca a tomar banho mudar de roupa que o perfume era óptimo, doze dias com banho de balde e chuva e fome.
Conclusão comecei a perceber o que se ia deparar pela frente, pois isto só ainda era o começar de uns longos meses.
Era o primeiro abastecimento de barco a FARIM depois de começar a guerra.

Pensei que parava por ali uns dias toca patrulhamentos nos arredores de BISSAU, para contactar com as populações e se alguma coisa de anormal se passavam.

Operação a MANSOA no final de Setembro

Em seguida operação na zona de MANSOA o primeiro contacto com o mato também de tristes recordações, rações de combate e munições suplementares, lá fomos até MANSOA ficamos instalados nuns barracões, porque chovia comemos a ração de combate para irmos mais leves chegaram as viaturas que nos transportaram até uma ponte destruída daí foi a caminhada a pedantes estrada fora até que entramos no mato todos em contacto com as mãos no cinturão do da frente, porque um descuido era perda de contacto, a minha secção ia na retaguarda por isso era importante não perder o contacto, o 1º. Cabo Alfredo que ia à minha frente o cinturão ficou quase desfeito passando por várias abatizes a chuva a cair torrencialmente, depois de várias horas a andar de baixo de chuva, parou de chover o dia aclarou e voltamos à posição normal deixando em paz os cinturões, o inesperado aconteceu, tudo à minha frente parou e não mais andavam, pus-me em pé e quando passei a minha secção, vem uma voz mais adiante deita-te, deita-te perdemo-nos do Capitão e do 1º pelotão onde estão os Alferes, respondeu ali, fui ter com eles relataram-me o que se passava, disse e agora?
A secção da frente não quer andar, não! Quem é o Furriel, é o Vargas, voltei-me para o Alferes mais antigo tem que dar ordem de avançar, disse Vargas temos que ir embora, começamos a andar mas muito devagar a uns trezentos metros à frente ouvi um tiro, mais uma vez todos para o chão, parados e ninguém se mexia ora o tiro foi para uma vaca que estava no interior do mato, como ninguém andava pedi autorização ao Alferes para ir para a frente com a minha secção avisei pernas para andar, foi uma cavalgada, pois ao longe já se ouviam tiros esporádicos, fomos sempre com atenção aos rastos e lá encontramos o Capitão e o resto do pessoal que já regressavam do objectivo, não sei o que se passou, nem sei se o objectivo foi alcançado e se ouve contacto com o IN, porque ninguém mais comentou sobre a operação a não ser o ficar para traz os dois pelotões, depois entre os Alferes e o Capitão não sei a justificação dada.
Aos Furriéis nada era dito nem antes nem depois, pelo menos ao meu pelotão estava tudo no segredo dos deuses e depois aconteciam destas coisas
Andamos mais uns dois ou três km até à estrada onde nos esperavam as viaturas que nos transportaram até BISSAU com passagem por MANSOA.

A Companhia foi deslocada para o sector de BAFATÁ em 7OUT65

Terminado o aperfeiçoamento operacional em BISSAU, no princípio de Outubro foi parte da companhia para BAFATÁ, lá me tocou novamente avançar em primeiro lugar com a minha secção, disseram são sempre os mesmos a avançar. Não sei se foi por estar nos RANGERES EM LAMEGO ou confiavam nas minhas capacidades, a mim tocou-me ir para CAMAMUDO.

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Quartel de CAMAMUDO no armazém de mancarra com os abrigos a frente e bidões cheios de terra

O Furriel Vaqueiro para CANTACUNDA e o Furriel Paio ficou em BAFATÁ, tomei conta do espólio do pelotão antigo, fiz de responsável do rancho onde fui enganado com um barril de toucinho com cem quilos em vez de toucinho era sal tive que ao longo do tempo compensar do meu bolso não pus nada e operacional, enquanto não se dou a rendição total dos velhinhos como gostavam de ser chamados, todos os dias era reconhecimento do sector, e tomar contacto com as populações.
Numa dessas saídas foi passar por SARA BANDA, aqui o Furriel disse para o perigo que nos iria deparar, depois seguimos em direcção a BANJARA, paramos em MANSAINA, eu fiquei aí com o jipão e alguns soldados seguindo no jipe o Alferes e o Furriel antigo com dois ou três soldados que chegaram até as abatizes, que ainda eram um ou dois kms, regressaram e voltamos para CAMAMUDO.
Só mais tarde é que me apercebi do perigo a que o Furriel nos meteu, quando só com carros blindados é que íamos para esses lados.
Duas semanas depois foram os restantes dando-se a rendição total, ficaram os piriquitos como eles nos chamavam, como fomos dos primeiros a chegar com a farda verde, em meados de Novembro fomos dar protecção à tabanca de UALICUNDA junto a fronteira com o Senegal, duas secções do meu Pelotão e o Vaqueiro com uma secção do 3º. Pelotão, onde o guia Junco pisou uma mina anti pessoal ficando ferido gravemente numa perna, onde estivemos seis dias e a ração de combate.

Operação AURORA a BANJARA zona do OIO

Em 25NOV65 fomos tentar ocupar BANJARA já os velhinhos comentavam que era difícil, como relatado acima, eu mais o Fur. Milic. antigo, com a minha secção e o Alferes já tinha-mos chegado às abatizes depois de MANSAINA a uns três, quatro km de BANJARA, os grupos de combate concentraram-se em SARA BANDA em seguida partida até MANSAINA, onde jantamos mais uma ração de combate e aguardamos a hora de avançar que se deu por volta das duas da manhã de 26 seguindo em fila indiana, passando cinquenta e quatro abatizes até à entrada de BANJARA chegando aí por volta das 4H30, a minha secção ia na retaguarda e logo de ficar emboscado do lado direito da estrada com a missão de observar o inimigo caso tentasse passar pelo pontão, porque pela bolanha era difícil devido ao caudal da água, tive uma grande batalha não com o IN mas sim com o baga baga, porque estava um grande monte de baga baga, à minha frente as formigas picavam que se fartava, só quando amanheceu é que vi a quantidade de formigas, como o IN não quis conta connosco começamos a concentrar-nos no centro em volta da casa a poente, onde chegou outra companhia vinda de MANSABÁ onde teve de passar por 18 abatizes o Capitão pediu um voluntário para por a bandeira em cima da casa como ninguém se ofereceu lá saltei eu para cima da casa toda destruída e lá coloquei a bandeira atada a um barrote.

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Destacamento de BANJARA instalações de Oficiais, Sargentos e bar na frente bidões cheios de terra

Uma ocupação sem um tiro nem IN nem população, quando estávamos informados que era uma operação de alto risco em virtude de se tratar de um local no centro do OIO e de passagem do IN com material bélico para SINCHÃ JOBEL e outras localidades a nascente de BANJARA.
O Capitão distribuiu os pelotões, ao meu tocou-nos a parte nascente logo a seguir ao pontão, munidos de pás e picaretas toca a fazer trincheiras e abrigos para defesa caso fosse necessário, mãos à obra, estando eu a tirar terra com a pá eis que cai uma cobra enorme no local onde esteva a tirar a terra levou com a pá ficou cortada em dois, lá acabamos os abrigos, todo dia a ração de combate, a noite passada nos abrigos, as noites eram frescas e o dia nunca mais chegava e nada de IN, a partir da manhã seguinte como a engenharia já tinha colocado o arame farpado numa área considerada lá fomos nós para o interior da vedação onde tomamos a primeira refeição ou seja o café, a seguir montar segurança ao destacamento, a minha secção coube-lhe a segurança do lado do pontão do lado nascente da estrada, montar tendas de campanha, pensei para comigo mas é para ficar, falando com os outros Furriéis sim parece que é para ficar, e foi mesmo para ficar.

  30NOV65 começou o patrulhamento em volta de BANJARA, começamos pelo circuito TUMANIA, BANTAJÃ e SAMBULACUNDA, a minha secção sempre atrás, pois não me apercebia do que se passava lá à frente quando chegamos a TUMANIA, já a população se tinha refugiado no meio da vegetação alta e densa, continuando o itinerário para BANTAJÃ a vegetação cada vez mais densa até perto da tabanca, onde sofremos uma emboscada à entrada uns tiros do inimigo a resposta foi imediata eu muito longe a ouvir o tiroteio, pensando não é nada comigo, foi feito o cerco mas população mais uma vez escapou, apenas três não conseguiram os seus intentos, dois idosos que ficaram lá, pois pareciam indefesos e um novo feito prisioneiro que nos acompanhou, como já era tarde regressamos a BANJARA e ficou SAMBULACUNDA para outro dia.
  Perto de BANJARA depois de passarmos a bolanha fomos emboscados na retaguarda da companhia onde tivemos um ferido sem que ninguém tivesse dado por isso, o Capitão pediu-me para mandar uma basucada na direcção de onde tinham vindo os disparos distanciei-me, distância necessário para não por em perigo o pessoal atrás, lá foi a basucada continuamos a marcha de repente o Furriel Vaqueiro deu por falta do soldado, foi atrás procurá-lo encontrando-o perto da bolanha, como já estávamos perto de BANJARA o Capitão não se apercebeu nem o restante pessoal continuamos até ao destacamento, o Vaqueiro quando chegou, todo vera com o Capitão gritou com ele, dizendo que o abandonaram sozinho com o ferido, o Capitão respondeu-lhe que não fora informado de nada e lá se acalmaram.

  Nesse dia à noite fomos atacados com rajadas de espingardas automáticas, grande confusão, cada um a fugir para os seus postos, mas foi rápido e tudo se calou, como piriquitos que éramos, mesmo de noite lá deixaram fugir o prisioneiro, pergunto como é que ele foi tão rápido a sair, pois estava tudo vedado com arame farpado e com garrafas de cervejas penduradas, para alertar se alguém de noite tentasse entrar no aquartelamento.

Mais uns dias a montar segurança, pás e picaretas e preparar abrigos subterrâneos.

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Começando as escavações para o abrigo subterrâneo da minha Secção, da esquerda Valter, Paixão, 1º. Cabo Manuel (mais conhecido pelo Cabo lateiro), Furriel Chapouto, Leonel, condutor Santos, Guerreiro e 1º. Cabo Vitorino.

Mais uma saída, passagem por TUMANIA tudo como dantes nada de população, picada à direita direcção de SAMBULACUNDA onde foi cercada, mas população nada, pois os sentinelas estavam atentos, apenas encontramos um deficiente das duas pernas lá ficou, como a fome apertava toca a comer mandioca crua seguimos em direcção a BANTAJÃ onde entramos, uma vez mais nada de população, os soldados foram distribuídos por sectores nos arredores da tabanca dentro da mata para observar se haviam alguns movimentos da população, eis que surgem uns tiros na retaguarda do IN que estavam em cima das árvores aquando da nossa passagem, mas sem consequências para a nossa tropa, só ouvia se tivesse uma G3 eu matava-os e gritava com a Mauser não podia fazer nada era o Zé, soldado nativo, foi o único que os viu lá regressamos e tudo normal até BANJARA.

Continuaram as escavações eis que chega o dia de Natal oferta de aerogramas amarelos e um isqueiro, noite de consoada costeletas com batata uns copos e cada um ao seu sector, depois das escavações cortar palmeiras ao lado do pontão transportá-las as costas até à estrado onde estava a viatura para os transportar para o destacamento e colocá-las em cima do abrigo, abrir bidões pô-los em cima dos troncos e cobri-las com uma grande camada de terra, porque o perigo podia vir do ar.

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Conclusão do abrigo que servia de dormitório, que foi estriado pelo Alferes Soeiro Comandante do meu Pelotão com capacidade para catorze ou quinze pessoas, deixando-se de dormir nas tendas de campanha. Até a casa ser reconstruída.

Continuando a nossa acção montando emboscadas na estrada MANSOA BAFATÁ para segurança das colunas que por ali passavam.
Em Janeiro de 66 apanhei uma infecção nas virilhas que mal podia andar o enfermeiro comunicou ao Capitão que eu tinha de ir ao médico a BAFATÁ, mas só no dia 21 é que foi possível, porque só nesse dia é que houve coluna e porque me lembro do dia precisamente no dia em que nasceu o meu filho, o telegrama chegou a BANJARA e eu parti sem que ninguém mo tivesse entregue com a outra correspondência, são consequências da guerra.
Fui ao médico, medicamentos e tratamentos e repouso em CAMAMUDO e nascimento do filho nada, todos os dias dizia ao telegrafista que perguntasse para GEBA se tinha algum telegrama mas nada, dia 27JAU65 voltei ao médico a BAFATÁ, o condutor disse-me que depois da consulta se esta fosse antes da chegada do avião que íamos ao aeroporto buscar o correio para o destacamento, a consulta foi antes e lá fomos, lá se distribuiu o correio por destacamentos, quando estavam a separar diz o cabo meu Furriel uma carta para si, então não é que chegou primeiro a certidão de nascimento do que o telegrama, pois tinha ficado em BANJARA e nunca chegou às minhas mãos.

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O bébé meu filho que nasceu em 21JAN66

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Foi um dia de festa a notícia do nascimento do meu filho, foi até caírem de cabeça grossa como diziam os nativos.

Os dias iam passando e lá me ia curando, umas voltas pelas tabancas, uma noite eu e o Furriel Vargas lembramo-nos de ir para casa do Chefe de Posto cada um levou uma garrafa de whisky, foram as duas mais meia do Chefe de Posto, saímos de lá por volta das duas três da manhã quando íamos a entrar no destacamento estava o 1º Cabo 147 Alfredo a sair de serviço, pegamos nele e fomos fazer uma ronda pela Tabanca do Régulo, porque vimos lá uma luz, estavam dois miúdos a estudar aquela hora fizemo-los deitar e dissemos ao 1º. Cabo para destapar uns cestos, ora o que estava debaixo, galinhas, toca torcer o pescoço a três e regressamos e toca a deitar a alvorada foi por volta das dez horas, porque o 1º. Cabo me foi chamar dizendo que o Chefe de Tabanca ia a caminho do Chefe de Posto com as cabeças das galinhas, momentos depois passou de regresso o Chefe de Tabanca, aí, fui ter com o Chefe de Posto para me responsabilizar pelo pagamento das galinhas e pedir desculpa aos lesados, resposta deste nem pensar o culpado foi eu e está tudo resolvido, mas não preciso de fazer nada, não já disse, à tarde o petisco onde entrou também o Chefe de Posto e mais umas cervejas e mais uma cabeça grossa.
Era assim a vida em CAMAMUDO passear pelas Tabancas fazer psico levar medicamentos para os doentes mais necessitados e trazer uns ovos e galinhas em troca, outras vezes pagávamos a mercadoria.

  Em Março entramos no programa de rotação, CAMAMUDO, CANTACUNDA, BANJARA e GEBA, dois meses em cada lugar, começamos por CAMAMUDO/CANTACUNDA que era só comer, dormir, caça jogar à bola e de vez em quando dar uma volta pelas Tabancas verificar se tudo estava normal e se era necessário alguma coisa.
Princípio de Maio toca a ir para BANJARA, mais umas operações mais emboscadas do IN sem resultado algum para as nossas tropas, como havia armadilhas em volta do destacamento colocadas pelo Furriel Tomé e como por volta do meio do mês o comer já escasseava toca de ir à caça chegando muitas vezes ir até Mansaina aos javalis na bolanha, mas nem velos, só rastos deles, até que no dia 22JUN66, o pior aconteceu, pelas sete, sete e meia da manhã o Furriel Tomé passou por mim eu estava a escrever um bate estradas para a família disse para eu lhe guardar o pequeno almoço, porque eu era o responsável pela alimentação e pronto para todo o serviço dizendo que ia à caça como era costume ele fazer essas saídas sòzinho nada de preocupações, passados uns minutos largos um rebentamento na direcção para onde ele tinha ido, eu saí cá fora e disse, este já foi, por volta das dez e meia nada do Tomé falei com o Alferes, o Tomé ainda não chegou não há problemas já é hábito dele, onze horas nada, onze e meia nada, meu Alferes aquele rebentamento está-me a cheirar a esturro temos que ir à procura dele, nem resposta do Alferes, ao meio-dia, nada de Tomé perante a passividade do Alferes pedi-lhe autorização para ir à procura dele, chamei o Soldado Carrilho elemento da secção que tinha andado com ele a armadilhar, fui com a minha secção, a secção dele e o Furriel Catrola também se ofereceu para ir, lá fomos pela picada com pouco uso com mato alto e denso, passados uns quinhentos metros ou mais ou menos a primeira armadilha verifiquei que estava tudo em ordem nada de rebentamento continuando a marcha em fila indiana mais uns quinhentos aproximadamente uma curva eu ia na rectaguarda na minha frente todos se atiraram para o chão eu fiquei em pé sem saber o que se passava fui à frente disseram-me que estava alguém deitado aí a duzentos e cinquenta metros, logo me apercebi que seria o Tomé, falei com o Catrola a estratégia a adoptar, combinamos eu ir por um lado da picada mas por dentro do mato ele pelo outro lado e a secção que ia à frente ficou onde estava e só avançava quando eu desse ordem ou se fosse preciso ir em nosso auxílio, depois de passar o corpo estranho uns metros à frente para melhor segurança, eu era o que ia verificar o corpo sòzinho e verificar se o corpo estava armadilhado, quando passei ao lado do corpo veio a verificar-se o que eu supunha, era o Furriel Tomé, depois de tomar todas as precauções necessárias como combinadas desloquei-me ao local onde estava o corpo prostrado, verifiquei o corpo se possível se encontrava alguma armadilha debaixo do corpo como não estava nada, verifiquei também se o corpo estava mal tratado para meu espanto nem um arranhão no corpo, excepto um pequenissimo orifício por baixo da orelha esquerda apenas a bandoleira da G3 toda estilhaçada, para minha surpresa era a posição em que ele se encontrava, de joelhos os braços em cima das pernas e a cabeça entre os joelhos perguntei a mim mesmo como foi possível, numa armadilha colocada por ele e esquecer-se do local talvez essa razão do sucedido.
Uns voluntários para irem buscar a maca, outros para o transportarem até que chegasse a maca, lá se levou até ao aquartelamento ficando na cave em cima dumas tábuas o resto do dia e noite porque só ao outro dia é que a coluna o veio buscar.

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Secção do Furriel Tomé (o quinto a contar da esquerda) falecido em 22JUNHO66 numa armadilha por ele montada abrindo o abrigo em BANJARA, DEZ65

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Fotografia tirada em CAMAMUDO da esquerda para a direita Furriel Chapouto, Furriel Tomé e um soldado da Secção do Furriel Tomé e o Amarleja

Passados oito dias fomos rendidos pelo 3º. Pelotão, fomos para GEBA, aí todos nos perguntavam como tinha acontecido, não vimos, caiu na armadilha.
O 1º.Sargento já tinha falado com os Oficiais e Sargentos dos outros destacamentos se colaboravam no pagamento para o corpo ir para a Metrópole todos estiveram de acordo, o meu pelotão como não havia deixar de ser concordou, não sei quanto me tocou, foi pena não ter acontecido o mesmo com o condutor que se despistou à entrada da ponte indo parar ao rio GEBA apenas ele não conseguiu sair, ficou debaixo da água, houve vários feridos e lá ficou no cemitério de BAFATÁ.
O tempo em GEBA era passado dar umas voltas pela Tabanca jogar futebol ir de vez em quando até BAFATÁ quando não havia operações.
Meados de Julho o IN atacou SARE BANDA por volta das dez horas da noite, alguns soldados já estavam deitados toca a levantar rapidamente equipamento necessário e para cima das viaturas e lá fomos a grande velocidade, quando nos aproximamos de SARE BANDA apeamos, faróis apagados só com os olhos de gato como lhe chamavam, nós na frente das viaturas com todas as precauções, porque ainda se ouviam alguns disparos entramos em SARE BANDA depois de termos mandado algumas morteiradas, montamos a segurança necessária em volta do arame farpado enquanto o Capitão se inteirava da situação, muranças incendiadas alguns feridos continuamos a mandar morteiradas nas direcções por onde eles atacaram a população como não se levou o prato do morteiro o 1º. Cabo tinha medo de agarrar no tubo, lá tive eu que pegar no tubo e explicar como se fazia, o tubo ia-se enterrando eu mudava-o de lugar e tudo se calou por ordem do Capitão.
Ao romper do dia fez-se o reconhecimento em volta do arame farpado, apenas uns rastos de sangue nas redondezas e cortes no arame farpado e alguns feridos ligeiros na população, regressamos a GEBA.
Três ou quatro dias depois de SARA BANDA ter sido atacada, saímos de GEBA em viaturas, o meu Pelotão e uma Secção do 3º. Pelotão sob as ordens do Fur. Vaqueiro em direcção a SARA BANDA onde apeamos e reforçados por uma Secção de Milícia de SARA BANDA.
Saímos ainda cedo na direcção de donde tinham vindo os rastos do IN, seguimos até a bolanha depois de a atravessar, em SARE DEMBEL viramos para a esquerda o mato cada vez mais denso e de alto porte uns kms à frente os guias e a milícia parou, como eu ia logo atrás perguntei o que se passava, disseram uma armadilha, depois de se tomarem todas as precauções e segurança, o Capitão incumbiu-me a missão de ser eu a levantar a armadilha, em virtude de Furriel de armadilhas do meu Pelotão ter morrido em Junho, mandei distanciar todo o pessoal e fiquei sòzinho, a armadilha uma granada defensiva que estava camuflada dentro da vegetação e de acesso difícil, tive que rastejar de costas por baixo dos ramos até ela lentamente, virei-me com cautela agarrei a granada e ao mesmo tempo a cavilha de segurança saltou, como tinha a alavanca presa não houve problema algum, ainda chegou para o susto, introduzir a cavilha, enrolar o fio em volta dela e metê-la no bolso.
Continuamos a marcha e um km ou dois adiante outra armadilha numa zona de fraca vegetação no meio de uma grande clareira, mais uma vez o Capitão ordenou que eu levantasse a armadilha, o levantamento foi mais facilitado em virtude da mesma se encontrar desprovida de vegetação, instalada numa cova no meia do capim ainda muito baixo, o fio estava elevado por meio de duas ganchetas dum lado e do outro da picada, foi agarrar nela enrolar o fio em volta e metê-la no outro bolso, sempre pronto para todo o serviço.
Continuando a marcha sem encontrar sinais do IN, eis que surgem pegadas frescas e bocadas em fruta deixadas na picada, entramos novamente no mato denso de árvores de grande porte, quando todo o pessoal estava dentro da mata paramos, foi instalada a segurança, uma pequena reunião do Capitão com o Alferes e os Furriéis e quais as cautelas a tomar em virtude dos rastos vistos, porque o IN estaria perto, estando nos em pé no meio da picada, apenas eu de frente para eles, eis que surge um elemento IN a uns trinta metros fazendo a curva em direcção a nós, de farda amarela chapéu redondo da mesma cor arma a tiracol cabeça baixa fixando o solo, quando eu tentei tomar posição para lhe apontar a arma, o Capitão e os outros como estavam à minha frente ficaram surpresos e sem reacção, porque não sabiam o porque da minha atitude, de repente o elemento IN desapareceu no mato, penso que eles nem o viram, disse, um terrorista o Capitão mandou-me disparar uma basucada, continuamos na direcção donde ele vinha, que era a nossa direcção para SINCHÃ JOBEl que já estávamos perto, quando fizemos a curva uma grande recta e nada de IN, no final da recta o Capitão mandou a secção do Furriel Vaqueiro ficar para traz emboscada no mato para nos proteger se o IN fosse atrás de nós, uns cem metros aproximadamente umas grandes palmeiras, água corrente toca a beber e encher os cantis e descansar um bocado à sombra das palmeiras, em frente uma grande clareira, em volta desta muitas bananeiras, o Capitão estava a falar com os guias qual a direcção a tomar, o IN estava a nossa frente num pequeno declive sem os toparmos, mas aperceberam-se quem era o comandante, porque um guia pronunciou o posto dele eu sai de lá e fui para a frente de repente uma granada na direcção do Capitão e outra na minha direcção e rajadas de metralhadoras o nosso pessoal respondeu de imediato com disparos de G3 e morteiradas mas isto uns dez minutos aproximadamente, o IN retirou sem deixar rasto, do nosso lado dois feridos ligeiros provenientes dos estilhaços das granadas, um soldado da Milícia num braço que estava junto ao Capitão e um soldado branco junto a mim felizmente que eu estava a passar junto a uma árvore de grande porte, comunicou-se com o Furriel Vaqueiro para avançar ao nosso encontro, continuamos na direcção donde vieram os disparos uma grande clareira muitos rastos no capim, passando a clareira entramos numa bolanha profunda dando a água pelo peito os mais baixos iam agarrados à corda que se tinha levado, uns kms à frente estavam as viaturas a nossa espera regressamos a GEBA sem mais nada acontecer.
Mais uns dias de descanso, passear pela Tabanca jogar à bola, comer uns petiscos com umas cervejas ir até BAFATÁ visitar os meus conterrâneos os irmãos Teixeira, o mais velho tinha uma drogaria em frente ao quartel o mais novo eis proprietário do restaurante a Transmontana casado com a professora D. Armanda Chaves da minha freguesia.
Nos finais de Julho mais uma operação para BANJARA, o destino era sempre o mesmo, proximidades de SINCHÃ JOBEL, saída de madrugada passagem por TUMANIA, BANTAJÃ e BELEL sem nada ter acontecido como sempre só no regresso é que eram elas. Atravessamos a bolanha com muita água no cruzamento uma grande clareira, seguimos em frente uma pequena subida, grandes subidas não havia nenhuma, entramos no mato denso e logo a esquerda dentro do mato camufladas uma palhotas, entrei de rompante com o pessoal da Milícia uns disparos dum lado e do outro sem consequências, os soldados da Milícia ia queimando as palhotas e destruindo grande quantidade de arroz, olhei em volta e nada do resto do pessoal, apenas um soldado branco ficou comigo e a Milícia comandada pelo Alferes de 2ª linha Braima, ordenei regressar mas o Braima não, vamos em frente, o rádio não apanhava os outros, pensando comigo que vou fazer, em frente não, maluco mas nem tanto, mais umas rajadas distantes, voltei-me para o Braima aqui quem manda sou eu, não era com duas G3 e Mauser que ia em frente, vamos para trás, obedeceu e chegamos à picada donde tínhamos saído, ai já consegui entrar em contacto com o Capitão, mandou-me emboscar junto a bolanha, desloquei-me para lá, pouco tempo depois contactou-me que regressa-se ao local onde tinha queimado as palhotas, mas que tivesse cuidado quando eles chegassem, em virtude de eu estar só com nativos podiam ser suspeitos e podia haver problemas, disse-lhe que todo o pessoal estava dentro do mato apenas eu ficava junto da picada, quando visse os primeiros avisava que já os estava a ver, assim foi.
Quando chegou o Capitão contei-lhe o sucedido, ele respondeu que só eu é que fui ao objectivo, pois tinha sido informado pela avioneta que nos sobrevoava que o objectivo tinha sido destruído.
Regressamos pelo mesmo percurso, atravessamos a bolanha e quando todo pessoal estava fora de água, saímos da clareira um pequeno declive e entramos na mata, uma emboscada granadas de mão e rajadas de metralhadora, deixei-me cair de costas na picada rebolei para junto de dois soldados que estavam com as suas armas encravadas, dei uma rajada e única até então na direcção donde vinham os disparos peguei nas armas deles, coronhas contra a árvore logo ficaram funcionais, uns dez ou quinze minutos e tudo se calou por minha ordem, o Capitão contactou comigo se havia problemas, tudo bem não há feridos mandou-me prosseguir até BANJARA nada mais se passou, regressar a GEBA.
Mais uns dias de descanso, passeando pela Tabanca bebendo umas cervejas fresquinhas com uns petiscos, jogando a bola.
Chega de descanso, mais umas patrulhas fora das áreas do nosso controlo, para verificar se tudo estava abandonado como anteriormente, numa destas patrulhas fomos surpreendidos por uma grande giboia, só me lembro de ver o soldado da Milícia suspendendo-a pelo rabo e ela serpenteando-se para se libertar, caiu-lhe da mão ao soldado, este deu-lhe logo com a Mauser na cabeça até que ela morreu.
Mais uns dias de folga, numa manhã eis que o Alferes nos chamou que a seguir ao almoço íamos sair, sem dizer o destino, eu ficava fulo levantar capas e ração de combate e prontos com o pessoal para sair, o Capitão ficou foi o Alferes Pimenta a comandar mais antigo que o meu Alferes, viaturas a andar, mais uma vez sem saber o destino, direcção de SARE BANDA, BANJARA paramos mandaram-nos apear, já estava pronta a Milícia, contornamos o arame farpado e direcção da bolanha por onde já tinha ido uma vez, atravessamos a bolanha para SARE DEMBEL, aí voltamos a direita e uns cem metros paramos, como o sol já estava a por, comemos a ração de combate e montamos emboscada todos molhados chovia torrencialmente ai ficamos toda a noite, quando parava de chover eram os mosquitos que não nos deixavam, o dia nunca mais chegava, rompeu o dia, o IN sem aparecer, o Alferes Pimenta que tinha o curso de minas e armadilhas colocou armadilhas em todas as picadas a algumas centenas de metros da bolanha e a entrada da mesma, também foram colocadas no meio da bolanha nos troncos das palmeiras e regressamos a GEBA.
Já andava a sentir umas dores intestinais a uns tempos, fui ao médico a BAFATÁ ele suspeitava que fosse apendicite, então aconselhou-me ir ao hospital a BISSAU, passados uns dias com guia de marcha para BISSAU de avião, no hospital exames radiológicos analises nada de anormal, fiquei mais descansado, então recuperar o perdido pelos bares de BISSAU, saboreando umas belas ostras com umas cervejas, acabou-se o dinheiro, não havia para pagar as refeições na messe em SANTA LUZIA, tive que pedir a um Furriel de CHAVES, ambos estudantes na referida cidade, foi só chegar a GEBA e enviar-lhe a importância pedida.

GUINE 65-67 473

Dois Soldados da minha aldeia que me acompanhavam nos petiscos em BISSAU

O hospital deu-me alta passado uma semana tive de regressar a GEBA, como não havia lugar no avião tive de ir na Bor até BAMBADINCA, rio GEBA acima, grande espectáculo dos ninhos nas árvores nas margens do rio.
Chegado a BAMBADINCA, foi difícil arranjar boleia para BAFATÁ, lá houve uma viatura que se deslocava para lá, porque para GEBA era mais fácil, porque a nossa oficina mecânica instalada aí, lá me levaram a GEBA.
Finais de Agosto mais uma operação para a zona perigosa da Companhia, que era a sul de BANJARA, foram tomadas todas as medidas de segurança, manhã cedo a cominho do objectivo tudo normal, tudo estava como dantes sem população e tudo continuava destruído, regressando pelo mesmo itinerário sem que pela primeira vez chegamos a BANJARA sem que o IN nos criasse problemas, também precisávamos descansar psicologicamente chegados regressar a GEBA que se fazia tarde e de noite o trajecto era muito perigoso.
Em início de Setembro mudamos para CAMAMUDO/CANTACUNDA, eu fiquei em CAMAMUDO, para passar mais dois meses de descanso bem merecidos.
Em CAMAMUDO o tempo era passado, jogar a bola, ir à caça, visitar as belas bajudas nas Tabancas e patrulhando o sector e verificar junto das populações se alguém desconhecido por ali tem andado e se necessitavam de alguma coisa, trazendo umas galinhas para o pessoal comer se dessem para uma refeição para o pessoal todo, caso contrário era para o petisco, lá se bebiam mais umas cervejas.
Em Novembro voltar novamente para o sacrifício de BANJARA, onde psicologicamente era penoso, não pelos ataques do IN, felizmente nunca se lembraram de aparecer enquanto a nossa estadia nestas paragens, mas sim pelo isolamento e a fome que se passava, os géneros só chegavam de mês a mês, porque quando chegava uma coluna antes do mês já sabíamos mais uma operação a procura de novas Tabancas sobre o domínio do IN ou se tudo estava como antes, a região de SINCHÃ JOBEL era prioritária.
Nos finais de Novembro fomos reforçados por um pelotão da Companhia 1588, mais uns piriquitos chegados da Metrópole, mandados logo para BANJARA capital do OIO, mas todos nos demos bem, sabendo que estávamos metidos no mesmo barco e só com sacrifício e calma tudo acabaria em bem, bom pessoal e ràpidamente se adaptaram ao modo de estar no mato e isolados de tudo.
Chega mais um Natal e novamente em BANJARA, como estávamos no final do mês, como sempre parte dos géneros já não havia, apenas pão e sopa e rançosa por causa da banha era preciso por sumo de limão para se comer, mas um dia antes do Natal, tivemos uma surpresa a avioneta a sobrevoar Banjara, já sabíamos que era carne que ia deixar cair e o correio, a carne toda desfeita mas era melhor do que nada, pois pudera, atirada lá das alturas, porque eles não se aventuravam a descer muito, era perigoso, pois seria um alvo fácil para o IN, lá se passou mais um Natal melhorado em relação aos outros dias.
Chegou a passagem de ano, uma noite linda, o luar brilhava, as cervejas e os whiskys deslizavam pela garganta não era preciso copo todos bebiam da garrafa, cantava-se o fado e tudo o que vinha em mente, já era o whisky que cantava e não nós, por volta da meia noite o Alferes do outro pelotão chegou cá fora a mandar vir com o pessoal, eu como piriquito mais antigo e já com muita tarimba de Guiné e farto desta situação, esta situação era para esquecer, exclamei piriquito vai dormir e fazer companhia ao Alferes Soeiro que era o meu comandante de pelotão, então ele não diz nada e vem cá o piriquito mandar vir, continuou a mandar-nos calar, eu cada vez pior ajudado pelo meu pessoal, o pessoal dele foi-se embora e eu continuei com o meu pessoal bebendo mis cervejas até cair e não dar mais, não sei se fui a pé, a rastejar ou de que maneira para a cama, pois foi a segunda vez, mas esta pior do que a outra, não sei se foi pelo dia em questão, ou então para esquecer a tristeza de mais um ano longe da mulher e filho que ainda não conhecia e restante família.
Quando fui para a cama pensei que um dia as saudades chegariam e tinha que as esquecer
Ao outro dia era a rendição, quando acordei tomar um banho para refrescar a mente e tomar o café, perguntei aos Furriéis se estavam com medo do Alferes, todos calados sem resposta, chegam os Alferes bom dia, respondemos bom dia, sentam-se à mesa e nada de comentários.
A seguir chamei de parte o meu Alferes e falei com ele em relação ao que tinha acontecido na noite anterior com o outro Alferes, respondendo não passe cartão, preparar a mochila enrolar o colchão, porque de dois em dois meses éramos como os ciganos sempre com a mobília as costas de lado para lado
BANJARA – DEZEMBRO 66

Com o Alferes e Furriel da Companhia 1588 de reforço à minha Companhia em cima do meu abrigo subterrâneo

Como era dia de rendição era necessário ir fazer a picagem da estrada até Mansaina, fomos duas secções como de costume, a coluna como sempre atrasou-se chegou, saltar para cima das viaturas até BANJARA, era carregar tudo para cima das viaturas, desejar sorte ao outro pelotão que era o do Vaqueiro comandado pelo Alferes Almeida e BANJARA ficava para trás só quando houvesse operações para esta zona, o destino era GEBA sede da Companhia.
Chegados a GEBA era descansar psicologicamente do isolamento de BANJARA e recuperar o tempo perdido, matando saudades pelas Tabancas, BAFATÁ e matar a malvada de uns camarões pescados no rio GEBA, uns frangos e uns ovos estrelados acompanhados dumas cervejolas.

Ataque à TABANCA DO SINCHO em 10JAN67

Passados alguns dias acabou-se o descanso, por volta das onze horas da noite, estava no bar com Oficias e Sargentos chega o 1º. Cabo Cripto a chamar o meu Alferes para ir com urgência ao Capitão, ficamos a olhar uns para os outros o que teria acontecido desta vez, bom não seria, o IN atacou a Tabanca de SINCHO perto de CANTACUNDA, um condutor com o jipe levou-nos ao aquartelamento que ficava a uns quinhentos metros no cimo da colina, cada Furriel mobilizou o seu pessoal a maior parte já estava deitado, que se prevenissem com todo o equipamento necessário, morteiro e LG., disse-lhe o IN atacaram uma Tabanca perto de CANTACUNDA, as viaturas prontas e seguimos em direcção à referida Tabanca que distava de GEBA uns trinta kms ou mais, passamos por CAMAMUDO por volta da meia-noite quando chegamos à bolanha as viaturas passaram bem não foi preciso o guincho pois a água era pouca, um km ou dois mais adiante deixamos a picada para CANTACUNDA e desviamos para a direita por uma picada mais estreita como a noite estava clara começamos a ver algum fumo no ar uma grande clareira e ao fundo a Tabanca, a nossa aproximação foi feita com muito cuidado e segurança cercamos a Tabanca a pouco e pouco ia aparecendo a população com a nossa chegada, estava aterrorizada e com muito medo feito o reconhecimento em toda a volta, nada de IN.
A Tabanca estava toda queimada e destruída, constatamos com dois mortos da população, ao romper do dia, verificamos um terceiro morto todo carbonizado o que de noite seria difícil localiza-lo, pois estava envolvido nas cinzas do colmo e canas.
Continuamos o reconhecimento nas redondezas e atrás dos rastos qual a direcção da sua aproximação, foram encontradas munições 7,62 em quantidade detonadas, rastos no capim onde estiveram deitados esperando pela noite para o ataque.
Como tudo estava calmo nada de IN, regressamos a GEBA.

Operação JOIA I realizada em 17JAN67

No dia 16JAN67 a seguir ao almoço o Alferes mandou que pessoal se equipasse que íamos sair, pelas quatro horas da tarde deixamos GEBA a caminho de BANJARA, paramos no cruzamento de SINCHÃ SUTU à espera da coluna que vinha de BAFATÁ com carros de combate e soldados que ficavam a prestar segurança enquanto o Pelotão aí estacionado também ia para a operação (OPERAÇÃO JOIA I).
Chegada a coluna, começamos a marcha até BANJARA, paramos em SARE BANDA, subiram alguns Milícias e continuamos, a picagem até MANSAINA foi feita pela Milícia de SARE BANDA e de BANJARA a MANSAINA pelo pelotão aí estacionado. Chegados a BANJARA, toca a comer a ração de combate e descansar ao relento.
Às seis da manhã, depois de tomarmos o café, saímos em direcção a MEDINA BANJARA passando por TUMANIA, BANTAJÃ E BELEL. Até aqui tudo normal, paramos e começamos a passar a bolanha que ainda se apresentava com bastante água dando pela cintura. Passando a bolanha desviamos para a esquerda até MADINA BANJARA. A vegetação passou a ser cada vez mais densa e a floresta cada vez mais alta.
Uns dois ou três quilómetros à frente eis que surgem umas palhotas desviadas da picada, metidas no meio da floresta densa. Como eu ia à frente fiz sinal para o pessoal se dividir e cercar as palhotas. Rápidos, eu e a Milícia entramos de rompante. Um soldado da Milícia disse:
Meu Furriel ali! – foi o suficiente para eles nos alvejarem. Vem um tiroteio na minha direcção, rebolei para trás duma árvore mas isto numa fracção de segundos e tudo passou e eu sai ileso.
Chegou o Capitão, contei-lhe o que passou, mandou revistar as palhotas. Apenas encontramos um deficiente dos membros inferiores que não andava, só rastejando, e era transportado em padiola de Tabanca em Tabanca. Já o tínhamos encontrado em Dezembro de 1965 em SAMBULACUNDA, tínhamo-lo deixado em paz, mas desta vez não escapou, segundo os prisioneiros ele era o chefe do sector.
Resultado do tiroteio: dois elementos do IN abatidos, reunir o pessoal e regressar pelo mesmo itinerário. Quando chegamos à entrada da bolanha paramos. O Capitão disse ao Alferes Soeiro Comandante do meu Pelotão que íamos atrás, quando íamos sempre à frente. Não me deram justificação alguma, mas pensei:
Todas as emboscadas que temos tido, eu na frente do meu Pelotão, com a minha Secção, e até à data felizmente nada nos aconteceu de gravidade, apenas uns arranhões dos estilhaços das granadas. O meu pessoal olhou para mim e perguntou porquê eu respondi:
Não sei de nada são ordens!
Passou para a frente o outro Pelotão que era o do Furriel Vaqueiro comandado pelo Alferes Almeida.
Começaram a atravessar a bolanha, passado pouco tempo ouvem-se três tiros que parecia de Mauser. Disse:
Os cabrões dos Milícias estão a brincar, pois só eles é que tinham Mauser.
Pouco tempo depois começamos nós a passar, o outro Pelotão já tinha passado e mantinha a segurança para a nossa passagem. Eu ia à frente e quando saí da água, surge o Cabo Enfermeiro, todo aflito:
Temos um morto, um soldado nativo, e um ferido, um soldado branco, conhecido pelo Alfama.
Exclamei, não pode ser! Mas é verdade. Cheguei-me mais adiante, tomando todas as cautelas e certifiquei-me que era verdade.
Informei o Capitão do sucedido, mandou-me arranjar pessoal para transportar o morto, como não era do meu Pelotão, não devia ser eu a fazê-lo, mas ordens cumprem-se e não se discutem, nem o momento era discutir quem devia ser, a ordem era para cumprir, mas diziam que não eram capazes devido ao seu estado, estava todo ensanguentado um dos tiros tinha-lhe acertado na testa. Tive de ser eu a acarretar com as despesas. Dois soldados nativos ajudaram-me, eu nas pernas e eles, um em cada braço.
Até à data nem mais um tiro, mas quando recomeçámos a marcha, os tiros voltaram na minha direcção. Deitei-me no chão e disse para me deitarem o cadáver em cima de mim de costas com as pernas para os meus ombros. Assim foi, levantei-me e toca a andar. Os tiros levantavam poeira à minha frente, caio não caio mas não temi, tinha que cumprir a missão já que os brancos não me ajudaram. Saí da zona de perigo e eu lá continuei mais umas centenas de metros, depois de fazer uma pequena subida, mais adiante o Capitão mandou tirar-me o morto das costas, eu estava exausto pois o calor apertava, era perto da uma da tarde. Bebi uma Perrier que costumava levar sempre, mas não foi o suficiente e eu estava mal, passei pelo Vaqueiro e disse-lhe que estava com sede e ainda faltavam uns quilómetros para chegarmos a BANJARA. Ele pegou noutra e dou-ma, grande amigo.
Chegados a BANTAJÃ, arranjou-se uma padiola para melhor transportar o morto e continuamos a passar por TUMANIA. Pareceu ouvir-se alguma coisa estranha mas nada de anormal, estava tudo como dantes. O Capitão pediu dois ou três voluntários para ir à frente para que viesse uma viatura à berma da bolanha buscar o morto, lá fui mais uma vez voluntário e ninguém me segui, pois ainda eram uns quilómetros até BANJARA.
Um quilómetro ou mais sinto passos atrás de mim mas ao longe disse para comigo:
É hoje que vai haver festa, nada de parar.
Quem vinha atrás de mim acelerava, eu também, vendo que o abuso já era de mais, voltei-me ràpidamente, verifiquei que era o Lamin, guarda-costas do Capitão, isto já perto da bolanha, onde já tínhamos tido emboscadas. Acenei-lhe com a cabeça, dizendo-lhe que tivesse mais cuidado ou que chamasse por mim, ele era preto mas ficou branco com o meu movimento. Cheguei à estrada perto do pontão, fiz sinal com a G3 ainda distante, logo uma viatura apareceu, disse-lhes para ir à bolanha buscar um morto.
Chegamos a BANJARA por volta das quatro da tarde e toca logo a processar-se o regresso, meter umas cervejas para refrescar e uma bucha, chegando a GEBA por volta das seis da tarde.
Foi assim um dos dias mais triste da minha permanência na GUINÉ, porque foi o único morto que tivemos em combate, depois de termos emboscadas com mais intensidade de fogo incluindo granadas e foi a minha última operação para os lados de BANJARA.

Como na minha viatura ia uma Secção de Milícia de SARA GANÁ tive de ir lá levá-los, quando chegamos o pessoal da Milícia deu a notícia da morte do nativo e que tinha sido eu transportá-lo, foi uma euforia gritavam Furriel, Furriel, eu estava de pé em cima da cabine da viatura, a população queria subir para me agarrar, eu sem perceber o que se estava a passar, perguntei o que é que se está a passar, não é nada de mal Furriel, estão a agradecer-lhe por não deixar lá ficar o morto e assim continuamos ate GEBA, tomar o merecido banho em seguida jantar e depois descansar, o cansaço era tanto que não houve cervejas nem whisky.

Mais uns dias que o IN nos deixou descansar, jogando à bola que era o único divertimento, ou então ir até ao RIO GEGA dar umas cacholadas e pescando camarão.

Transcrição do Comandante da Companhia Capitão de Infantaria JOSE FACEIRA TEIXEIRA em relação a Operação JOIA 1.

A destacar no segundo contacto com o IN a acção do Furriel Miliciano de Infantaria – FERNANDO SILVÉRIO CHAPOUTO porque se comportou de maneira altamente decidida e corajosa quando se encontrava debaixo de fogo, oferecendo-se voluntariamente para transportar o soldado nativo morto, tendo-o feito ainda sob a acção IN, e praticamente sòzinho durante distância considerável.
Este seu procedimento obrigou-o a expor-se abertamente ao perigo, mostrando possuir muita serenidade, coragem e presença de espírito, sobrepondo o acto cometido à sua própria vida. É francamente louvável o seu esforço e atitude, símbolos de verdadeira abnegação.
Secção do Furriel Miliciano Vaqueiro componente da nossa tertúlia, quarto a contar da direita em pé, o nativo morto nesta operação é o primeiro a contar da direita de cachimbo na boca Machado Cumbá.

Segue fotocópia da Caderneta Militar:

Ataque à Tabanca de SINCHÃ SUTU em 24JAN67.

Por volta das 22 horas ouviram-se algumas explosões para os lados de SARE GANÁ, mobilizar o pessoal e toca a andar que se faz tarde, quando chegamos ao cruzamento de SARE GANÁ, como tudo estava calmo foi-nos dito que era em SINCHÃ SUTU, uma pequena subida e em seguida uma grande recta, a viatura a alta velocidade perto de SINCHÃ SUTO umas rajadas de metralhadora eu como sempre nestas situações ia sentado na viatura na parte de traz com as pernas penduradas, como estava habituado a saltar em andamento e nunca me tinha acontecido algo.
Mas nesse dia medi mal a velocidade, dei meia volta no ar e caí de cabeça, ficando estatelado, a minha Secção veio em meu auxílio, só me lembro de dizerem a velocidade era muita.
Já não fomos na viatura entramos mato dentro em direcção à Tabanca que era perto eu na frente e todos a andar depressa, chegados à Tabanca ainda me lembro de ver uma granada de roquete, que não detonou e cai desmaiado, reanimaram-me, comunicaram com o Capitão para GEBA que era preciso uma viatura para me transportar porque o Furriel Chapouto estava ferido, eu nem me tinha apercebido do meu estado como era na nuca e a quente nada doía depois é que foram elas todo ensanguentado.
Como a outra viatura foi logo para BAFATÁ com um ferido grave da população.
O Capitão disse pelo rádio que ia mandar uma viatura e o 2º. Sargento Silva para me substituir, comuniquei que não era necessária a minha substituição, porque, um dos três Cabos era competente para tomar conta da Secção.
Chegou a viatura e transportaram-me para GEBA, o Furriel Enfermeiro prestou-me os primeiros socorros, mas disse que era necessário ir para BAFATÁ ao médico que eu estava mal, disse que não ia, deitei-me na cama as dores cada vez mais, voltou o Capitão para ver se estava melhor, mas nada de melhoras mandou chamar o condutor com a viatura e disse Chapouto para a viatura, eu continuava a dizer que não era necessário, frisou eu quero que vá e imediatamente, lá fui eu, porque as ordens cumprem-se e não se discutem, cheguei a BAFATÀ por volta das três horas, como a médico estava a tratar do ferido grave deitaram-me numa maca e lá estive eu esperando pela minha vez que nunca mais chegava, só ouvia o medico tem que ir para BISSAU têm que tomar as providencias necessárias para o romper do dia com a maior urgência, e eu nada, levaram o ferido não sei para onde e ninguém aparecia nem médico nem enfermeiro o tempo parecia que nunca mais passava e eu ansioso que fossem seis e meia, mal que o corneteiro tocou levantei-me espiei pela porta da enfermaria que era junto à porta de armas, estava aberta e ninguém por ali, sai, em frente do outro lado da rua estava a caserna dos soldados que estavam lá dois soldados condutores da minha terra, já sabiam que eu estava lá ferido, disse-lhes logo nada de noticias a meu respeito para a terra não quero que eles nada disto saibam, disseram logo fica descansado que não dizemos nada.
Sai dali todo torcido fui ter com o senhor Eduardo Teixeira que era o dono da drogaria ao lado do Quartel, irmão do senhor António Teixeira antigo proprietário do restaurante A TRANSMONTANA que eram perto da minha terra, como ainda estava fechado, fui pela porta da casa bati ela abriu-me a porta contei-lhe a história, mandou servir o pequeno almoço para mais um, o apetite não era muito mas lá comi e saímos para a rua que estava na hora de ele abrir a porta em frente da casa dele era a oficina de reparação das viaturas da minha Companhia aí já sabiam o que me tinha acontecido disseram-me que andavam a minha procura que eu tina desaparecido, perguntei se havia alguma viatura para GEBA disseram que estava o José Rosa com a GMC a carregar bidões de gasolina, mal que ele chegou parou saltei logo para cima dos bidões com um pouco de custo, o condutor queria que fosse a frente disse que não, pois era o mesmo condutor que me tinha transportado de GEBA por isso sabia o que se passava arrancou quando íamos a passar em frente a porta de armas diziam ele vai ali, acenei-lhe adeus.
Cheguei a GEBA apresentei-me ao serviço que estava de Sargento Dia que era só de nome de resto mais nada, o Primeiro Sargento disse que eu não estava em condições para fazer serviço, fui descansando durante o dia as dores continuavam pescoço torcido o peito dilatado lá passei o dia e a noite, quando estava a comer o Primeiro Sargento, Chapouto está de serviço, quem eu! Não, se ontem não estava em condições hoje também não, disse-lhe que ia falar com o Capitão ficou a olhar para mim, fui ao gabinete do Capitão, perguntou-me se estava melhor, disse isto não vai bem preciso de ir ao médico, mandou logo o estafeta chamar o seu condutor e dois soldados para me levar a BAFATÁ chegando a enfermaria o medico perguntou-lhe porque me fui embora disse-lhe deixaram-me sozinho durante tanto tempo esqueceram-se de mim, disse que eu tinha razão e então o que eu queria, acha que posso estar operacional neste estado, nem pensar leva medicamentos para as dores e trinta dias de convalescença.
Cheguei a GEBA entreguei o papel na Secretaria ao Primeiro Sargento, respondeu isto é vingança nem respondi, dirigi-me ao gabinete do Capitão dando-lhe conhecimento da minha situação mandou-me descansar que bem precisava.
O tempo ia passando o descanso era óptimo, comer e dormir, como o aquartelamento era desviado uns quinhentos metros só descia para comer e conversar um pouco no bar, mas por sorte neste tempo não houve trabalho para ninguém em especial apenas umas patrulhas às tabancas em volta.

No dia cinco de Fevereiro à hora do almoço chegou a minha beira o Primeiro Sargento a dar-me a noticia que no dia catorze ia fazer exame de condução, qual era a minha posição se ia ou não, então não havia de ir, ele disse já não esta doente? Acha que vou perder esta oportunidade, por favor marque-me viagem para amanhã, como não foi possível só fui dia sete e lá fui com o pescoço torcido, pois não podia olhar em frente.
Cheguei a BISSAU fui logo a Escola S. Cristóvão tratar de dar umas lições foram apenas cinco lá dei umas voltas por BISSAU nos pontos estratégicos que os instrutores conheciam bem, o instrutor ia-me dizendo cuidado com esse a vontade e mais devagar que aqui não é mato e eles não perdoam.
No dia do exame de manhã apresentei-me no Quartel General confiante, primeiro foi o código, cores, sinais, reflexos e tabuleiros com varias situações de automóveis para um lado e para o outro, mas tudo correu bem, mandaram-me esperar lá fora, passado alguns minutos fui chamado para a condução, já estava ao volante outro Furriel e ao lado dele o examinador que era Alferes eu e o instrutor atrás, lá demos umas voltas o Furriel já era a segunda vez e as asneiras iam-se acumulando, o Alferes mandou-o encostar ou ele não ouviu ou se distraiu se o Alferes não trava ia bater num carro que estava estacionado, disse cá para comigo isto está mau, mandou-o sair do carro para trás e eu para a frente mandou-me seguir em frente uns cem ou duzentos metros à frente parei ele disse eu não o mandei parar, meu Alferes não vou prejudicar uma pessoa que está a fazer uma inversão de marcha num exame, deixei fazer a manobra e segui, cruzamentos para aqui para ali chego ao sinaleiro contorno volto à esquerda já sabia para onde ia, voltar à esquerda e fazer a pequena subida, mandou-me parar a meio, disse com a embraiagem ou com o travão responde como quiser parei o carro só com a embraiagem mandou-me arrancar, arranquei sem o carro descair siga em frente, quando chegamos à esplanada mandou-me estacionar, agora vamos beber um café eu não bebo então espere aí, as coisas estavam-me a correr bem mas ainda faltava ir até ao Quartel General mas correu tudo bem.

À tarde fui saber o resultado, como esperava, passei o outro Furriel mais um chumbo teve que esperar mais uma semana para ir novamente a exame.
Dia quinze foi chamado à Secretaria do Quartel-General que tinha avioneta para BAMBADINCA, disse para o Furriel isso é que era bom nesse transporte não vou, mas tens que ir estão lá à tua espera, para que se estou com baixa, mas para ires ficar no destacamento que o pessoal vai sair, não vou, só de avião ou de barco, só dia dezassete é que fui de avião.

Quando cheguei a GEBA fui informado pelo meu Alferes que no dia seguinte tinha que ir para BANJARA, mas que ficava no destacamento com o meu Pelotão para manter a segurança, nem disse nada quanto à minha baixa fui, estive lá dois dias era só ver o helli chegar com feridos ligeiros, no segundo dia o helli não mais apareceu e ainda bem e regressamos a GEBA.

Continuei em GEBA até fins de Fevereiro sem mais nada ter acontecido felizmente, que nos deixaram descansar uns dias, para recuperar a moral e eu continuar a recuperar do acidente, pois ainda não conseguia olhar em frente correctamente, quando tentava voltar para o outro lado doía, mas ia passando e os dias também.

No dia um de Março mais uma rotação como vinha acontecendo de dois em dois meses desta vez tocou-me ir para o destacamento de CANTACUNDA.
Do meu Pelotão apenas eu é que tive o privilégio de ser o contemplado, pois o meu Pelotão ficou todo em CAMAMUDO, quando havia de ir metade, nem a minha Secção me acompanhou, não sei se por castigo ou por experiência, não me foi dada qualquer explicação, já estava habituado por parte do Alferes manter o segredo até à última.

O destacamento de CANTACUNDA estava a ser comandado pelo Furriel Miliciano Paio do primeiro Pelotão que ficou com duas Secções, pois era a vez de irem para BANJARA, por isso fui comandar a outra Secção.

Com o Régulo o chefe máximo da região de CANTACUNDA

Chegado a CANTACUNDA foi conhecer os cantos à casa, condições muito precárias, só BANJARA é que era pior, pois só lá tinha ido uma ou duas vezes jogar a bola, mas foi chegar jogar e regressar a CAMAMUDO, visitar a Tabanca, conhecer o pessoal, espacialmente as bajudas, arranjar lavadeira e usos e costumes do pessoal.

CANTACUNDA era uma Tabanca muito estranha, a maior parte da população muito desconfiada, nem consegui durante o mês e meio que lá estiva chegar a uma conclusão, talvez a desconfiança fosse a presença de pessoas estranhas à nossa tropa, que por ali passavam uns a pé outros de bicicleta, juntavam-se debaixo dos mangueiros a conversar debandando quando nos aproximava-mos, perguntava aos soldados nativos, quem eram e donde vinham, mas ninguém me sabia responder ou então cumplicidades com eles.

Depois de conhecer os cantos à casa e da Tabanca, juntar pessoal necessário e reconhecer o exterior e certificar-me o que se passava no exterior da Tabanca, seguir por algumas picadas, algumas das quais mostravam algum movimento, mas já para lá da bolanha.

Chegado ao destacamento dei conhecimento ao Furriel Paio do que se passava, sugeri que aquela picada mais movimentada fosse armadilhada concordou comigo e no dia seguinte a seguir ao pequeno – almoço disse ao Furriel Paio para me dar nove ou dez soldados levando o armamento usual como para um reconhecimento, mais um soldado nativo conhecedor da zona, fui munido de duas granadas defensivas e lá fomos, passamos a bolanha andamos mais um km ou dois escolhi o local mais discreto, uma pequena árvore com um pouco de vegetação rente ao chão em volta, montei a segurança enquanto executava a montagem coloquei-a aí a um palmo do solo, do outro lado mais arbustos, porque deste lado dava mais nas vistas segui as instruções recebidas nos rangeres sem algum receio.

Colocada era preciso ter em atenção um ponto de referência, localizei uma árvore seca de grande porte com uma bifurcação enorme contei os passos e quando cheguei ao destacamento elaborei o croqui com todos os pormenores e para quem viesse atrás não tivesse dúvidas da sua localização.

Mais uns dias se passavam dar umas voltas pela Tabanca conhecer mais de perto os movimentos de alguns que me pareciam estranhos, tentar compreender a língua que nunca consegui patavina nem de fula, nem de mandinga só apenas um pouco de crioulo e nada mais, também a minha, nossa missão não era essa, sim defender a população e que com a nossa presença se sentissem seguras, mais pela tarde e já o sol raiava jogava-se à bola, davam-se uns pontapés, nunca havia onze de cada lado, depois era tomar um banho no belo balneário aí existente.

O lavatório típico das péssimas condições existentes em CANTACUNDA

Mais uns dias de descanso e novo reconhecimento das picadas e verificar a armadilha se tudo estava normal, quando cheguei à dita árvore ordenei aos soldados que se dividissem em dois grupos e se deslocassem dentro do mato ao longo da picada até ao local da armadilha, toca a contar os passos com cuidado pois podia haver alguma surpresa até à armadilha, para meu espanto quando cheguei ao local da armadilha verifiquei que o fio estava partido ou cortado verifiquei a armadilha tudo normal com ela, pensei aqui há gato como levava outra comigo andei mais um km aproximadamente e montei outra esta num lugar muito estreito e mato muito denso e com indícios de passagem de alguém por aquele lugar, no regresso na passagem pela primeira armadilha pus a cavilha em segurança mudei de fio e regressei novamente ao destacamento que já estava na hora do almoço.
Aproximava-se o domingo de Páscoa e tinha-mos agendado um jogo de futebol com a equipa de CAPÉ, o jogo era de manhã era preciso ir à lenha para a cozinha, como o condutor estava atrasado pediu-me para que fosse eu com a viatura, lá fui com o dançarino unimogue aí a uns kms de CANTACUNDA perto da bolanha na direcção de CAMAMUDO, carregou-se a viatura e regressar, eu vinha na brasa e os nativos força Furriel e eu cada vez mais o pior foi quando entrei em areia o unimogue por si já era dançarino e sem estabilidade eu com o volante para um lado e para o outro, mas não deixei de sair da picada, a sorte é que não havia nada de árvores ao lado, quando equilibrei a viatura fiz uma tangente a uma árvore na entrada de novo na picada e lá chegamos inteiros ao destacamento, mas não chegou para o susto e para futuras ter mais cuidado além de ter carta de condução há dois meses, mas muita experiência de condução nas picadas.
Descarregada a lenha foi subir o pessoal seleccionado para a viatura, pois o jogo era às dez horas, além de serem vinte ou mais kms o trajecto foi rápido chegando antes da hora prevista, como o pessoal já ía meio equipado, foi tirar o camuflado e começar o jogo, correu tudo bem menos a nossa derrota por um zero

Equipa de futebol de CAPÉ capitaneada pelo bem conhecida da zona Carlos Barbosa, filho do patrão da refinaria de cana de açúcar o primeiro em pé a contar da direita.

Acabado o jogo regressamos a CANTACUNDA, foi tomar banho e almoçar que já estavam à nossa espera.

Passados uns dias o Furriel Paio deslocou-se a GEBA em serviço e quando regressou dou-me a grande notícia que em breve íamos ser rendidos informamos os soldados, mas que nada saísse para o exterior por causa dos soldados nativos que levavam logo a notícia.

No dia a seguir reuni o pessoal necessário para ir verificar as armadilhas e certificar-me se os croquis estavam em conformidade com o que tinha feito, para deixar tudo em ordem ao pessoal que nos vinham render.

Deixamos o aquartelamento por volta das dez horas em direcção à bolanha atravessamos esta, nesta altura ainda seca, uma pequena subida e entramos na mata com algumas árvores de grande porte e arvoredo rasteiro, cheguei ao ponto de referência da primeira armadilha, mandei instalar o pessoal metade de cada lado da picada e seguirem um pouco mais atrás em relação a mim e comecei a contagem das passadas que tinha no croqui, quando cheguei a duas ou três passadas antes, outra surpresa o fio cortado novamente, como estávamos de saída não foi tomada qualquer medida de emboscar naquela zona para nos certificarmos porque acontecia aquela situação, continuei em frente para verificar a outra armadilha, chegando a esta verifiquei que o fio não tinha desaparecido, como estava num lugar muito complicado de chegar à armadilha, para precaução coloquei-me a uns trinta metros e um tiro eu sei que lhe acertei, mas há um militar que disse o meu Furriel não acerta nada eu atiro, atirou e nada, disse cá para comigo aqui há gato montei a segurança em redor para eu me aproximar cautelosamente, porque ela estava em local com mato à volta e no arredor dela podia estar alguma armadilha, pois se já era uma surpresa o que tinha visto, ainda a surpresa era maior, os tiros desfizeram as partes laterais o resto da granada estava lá assim como o aço em volta dela, para meu espanto nem cavilha de segurança nem espoleta, pois os desconhecidos que apareciam de vez em quando na Tabanca faziam das deles e brincavam com a tropa a sorte deles é que eu estava para ser rendido e quem viesse atrás que fechasse a porta.

Regressei ao aquartelamento todo furioso e durante o almoço comentei o sucedido com o Paio, ele só me respondeu amanhã vamos embora, deixa as coisas bem esclarecidas e dá todas as instruções à pessoa responsável pelas armadilhas.

No fim do almoço pus tudo em ordem em seguida fui dar uma volta pela Tabanca, buscar a roupa à lavadeira, mas ainda não estava pronta disse que dali a duas horas eu quero tudo pronto ela disse amanhã, não hoje, assim foi passadas as duas horas lá estava eu e a roupa estava pronta paguei e regressei ao aquartelamento.

Há noite depois de jantar o pessoal foi informado que no dia seguinte de manhã cedo ou seja 18ABRIL67, ia-mos ser rendidos, disse o Furriel Paio, ficaram a olhar uns para os outros, ele ordenou que todos metessem tudo dentro das mochilas que íamos para GEBA entregar todo o material excepto a roupa, que íamos regressar a Metrópole, grande euforia mas acabou-se porque havia pouco tempo para arrecadar tudo nas mochilas e manter a segurança durante a noite

Pela manhã cedo toca a por tudo em ordem para entregar a mobília ao pessoal que nos vinha render, foi rápido, pois havia pouco para entregar alguns géneros as armas de autodefesa, enfermaria, transmissões e a caserna com as respectivas camas.

Deixamos pelas costas sem saudades CANTACUNDA por volta das nove e meia a caminho de GEBA com paragem em CAMAMUDO, aqui fui-me despedir do pessoal da Tabanca e do Chefe de Posto, pois foi aqui onde passei mais tempo, mas tudo rápido, continuamos até GEBA onde fizemos a entrega da G3, Faca de Mato, Granadas de Mão Ofensivas e o colchão que também me estava distribuído que era de espuma com cobertura que já estava toda rota devido ao suor.

Depois do espólio feito já as viaturas estavam à espera, fomos informados que íamos para FÁ MANDINGA à espera de barco, seguimos viagem passando por BAFATÁ onde chegamos por volta da uma hora e pouco da tarde, descer das viaturas e rumo ao refeitório que o almoço estava à espera e que o estômago estava vazio, acabando o almoço foi reunir o pessoal e dirigi-lo às casernas onde iam ficar instalados, as casernas ficavam nuns barracões na parte mais baixa de FÁ, pois no alto da colina estava uma Companhia ou Batalhão, os Furriéis ficamos logo à entrada aí uns duzentos metros das casernas dos soldados, mas para maior espanto nem uma arma nos foi distribuída, assim como aos soldados, assim estivemos até ao dia dois de Maio.

Aí os dias eram passados a jogar a bola, ir de vez em quando passear até BAFATÁ comer uns petiscos e visitar os meus conterrâneos.

No dia dois de Maio a seguir ao almoço formar e seguir para as viaturas, carregar as lembranças nas respectivas viaturas destinadas a cada Pelotão e seguir para BOMBADINCA onde nos esperava o barco, a BOR que nos transportava no rio GEBA até BISSAU onde nos esperava o barco UIGE.

Na BOR no RIO GEBA na direcção de BISSAU onde nos esperava o UIGE de regresso à Metrópole

Onde chegamos por volta das quatro da tarde, subir pelas escadas estreitas com uma caixa de madeira onde levava várias recordações uma caixa de cartão grande. Foi instalar-nos nas camaratas, desci do barco, apanhei um barco pequeno para o cais, porque o UIGE não encostavam no cais, fui comprar uma caixa exterior para o rádio marca, Hitachi comprado na casa Gouveia em BAFATÁ em Outubro de mil novecentos e sessenta e cinco, a que tinha, estava toda partida, voltei porque tinha que ser rápido, ordens do Capitão, porque o pessoal tinha que formar para o jantar e queria falar com todo o pessoal.
Jantamos, fomos até ao bar beber umas cervejas e um bocado de conversa, fazer horas para dormir.

Na manhã seguinte quando acordei, já muitos mal dispostos, porque o barco baloiçava muito com a ondulação, também devido à sua largura ser pouca, olhei pela vigia e observei que já estávamos longe da costa.

No BARCO UIGE, a descansar depois de uma refeição, onde se reconhecem os Furriéis Milicianos: da esquerda para a direita: elemento de outra companhia, Chapouto, Cardoso, Vaqueiro, Leonel, António Luís e o Silva.

Os dias eram passados jogar às cartas, contarmos as nossas histórias. Como estávamos em quadrícula só nos víamos de passagem, ou então quando fazíamos uma operação em conjunto.

No refeitório do BARCO UIGE em que se reconhecem em primeiro plano o Furriel Paio, o Marques o Cardoso de óculos e o Chapouto o fotógrafo.

No dia nove de Maio quando acordei e fui à vigia já vi terra, estávamos à entrada da barra, chegou a barco dos pilotos e lá fomos rio Tejo acima até ao Cais da Rocha, neste percurso, quando nos íamos aproximando da Ponte sobre o Tejo já concluída e inaugurada, pensei cá para comigo agora não podemos passar a maré está cheia, os mastros tão altos e o barco não passa, santa ignorância, mas passou e atracamos por volta das dez horas.

Quando o barco atracou levantei os braços de alegria por regressar e consciente do dever cumprido pela Pátria.

O Barco UIGE que nos transportou de regresso à Metrópole

Descemos do barco o desfile da praxe que já não estava habituado, para as altas individualidades que aí se encontravam, que no mato não apareciam e revista as trotas, para ver o perfil dos militares e eu sem botões nos bolsos do blusão, estavam descosidos dentro do bolso nem os cozi, o blusão já me não era preciso.

Mas depois tive de mobilizar a minha esposa a coloca-los para no dia dez de Junho ir ao PORTO receber a CRUZ DE GUERRA.

Em conclusão sou um herói, não pela cruz de guerra, mas sim pelo dever cumprido, porque heróis são todos aqueles que serviram com dignidade a missão que lhes foi incumbida.

Não posso esquecer os que tombaram ao serviço da Pátria, esses duplos heróis que estão esquecidos pelos nossos políticos, curvo-me com todo o respeito.

Terminou a guerra no mato, mas não terminou a guerra psicológica que passados quarenta anos ainda paira na minha memória e continuará para sempre.

FERNANDO SILVÉRIO CHAPOUTO

Ex Fur. Milic. Da CCaç. 1426 – Guiné 65/67